Sobre The Runaways e a Supervalorização de Kristen Stewart

                           The Runaways : Cinema do bom!

No domingo passado, assisti ao filme The Runaways, dirigido por Floria Sigismondi e baseado no livro escrito por Cherie Curie (ex-integrante da banda que dá nome ao longa).

Minhas expectativas quanto ao filme eram altas. Adoro o gênero cinebiográfico ou cineverídico, sempre gostei, o motivo é o fato de me sentir um pouco parte do acontecimento e ter uma reação emocional mais verdadeira, por saber que aquilo realmente existiu. Também apoiei minhas expectativas no fato do filme ter aquela aura indie que eu amo. Sou a maior indie-sucker que existe.

O elenco não me empolgou tanto.  Michael Shannon seria o único ponto forte, afinal, quem assistiu Foi Apenas Um Sonho sabe o quanto esse ator indicado ao Oscar tem de potencial. Dakota Fanning para mim sempre foi sinônimo de atuação forte, porém forçada com a antiga ambição de ser a “golden child” de Hollywood. Tatum O’Neal tem atuações tão irregulares quanto sua vida. Porém, nenhum desses nomes me incomoda mais do que Kristen Stewart. Digam o que quiserem, não gosto do trabalho dela. Acho os elogios a ela exagerados e não me importo em quantos olhares tortos isso me rende. Quarto do Pânico, Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Férias de Verão Frustradas, Na Natureza Selvagem e The Yellow Handkerchief (sem título em português, eu acho) são alguns exemplos de filmes que eu adoro mas que preferia que ela não estivesse neles. Acho Kristen Stewart fraca. Acho sim. Acho que Kristen Stewart não sabe atuar, sempre rendendo na verdade uma versão dela mesma. Versão loira e impulsiva, versão filha de pais doidos e que mora num estacionamento de trailers, versão que namora o vampiro, versão que trabalha num parque de diversões e tem um caso com um homem casado, versão diabética e trancada num quarto do pânico e versão stripper. Nunca vejo nuances desconhecidas e empolgantes nela. Sempre vejo os mesmo truques de atuação. A mordidas nos lábios, o jeito desconcertado, a falta de vaidade, os silêncios incômodos. Kristen Stewart é unilateral. E em The Runaways ela também o é. Porém, ela tem extrema sorte de sua personalidade ser parecida com a de Joan Jett e também de ter uma caracterização muito boa, o que faz à primeira vista seu trabalho parecer crível e bem feito. Mas no geral, tudo que vi nela foi a Bella de Crepúsculo, com um corte de cabelo ruim, roupas feias e fumando cigarros. Ah, claro, e tendo relacionamentos bissexuais.

A diretora Floria Sigismondi é desconhecida do grande público. Essa italiana é mais conhecida por sua direção em vídeos musicais que vão de Marilyn Manson a Christina Aguilera, passando por Muse e White Stripes. E todos que assistirem a The Runaways devem ter isso em mente. Floria é diretora de videoclipes. Tal qual Spike Jonze, Michel Gondry, David Fincher, Michael BayGore Verbinski. O que não é algo tão ruim (com exceção de Michael Bay).Mas, por ser diretora de clipes, Floria não tem a força necessária para comandar seus atores, como os diretores de cinema devem ter (vide Sr. Tarantino), porém isso não chega a ser um comprometimento vital do filme. Pelo lado bom, Floria dá um toque feminino ao filme, um toque meio Girl Power. E isso me fez pensar se as Runaways seriam as avós das Spice Girls… 

O começo do filme já mostra a que ele veio. Dakota Fanning na primeira cena já mostra que não é mais uma menininha. Mesntrua, fala como adulta e tem conversa maliciosa com o namorado da irmã Marie (Riley Keough). Dakota me surpreendeu, de verdade. Ela está segura, séria e crível. Sua Cherie Curie, autora do livro em que o roteiro do filme se baseia, é adorável, odiável, sente-se pena e raiva dela ao mesmo tempo. Então somos apresentados a Joan Jett. Kristen entra em cena, faz sua “mágica” e sai de cena me deixando com a impressão de que vi um dia em sua vida. Tédio e falta de talento.

O filme segue e Michael Shannon começa a roubar a cena. Seu Kim Fowley é sarcástico, ácido, cruel, canalha, chave de cadeia (como ele gosta tanto de dizer durante o filme), picareta e genial. Mesmo com tudo para ser ridículo (caracterizado da forma mais extravagante possível), Michael não o é, ele é divertido e deliciosamente desprezível.

Então, com a aparição de Kim Fowley, a banda tem início. Cherie, Joan, Sandy e Lita se tornam as Runaways. Devo destacar que Scout Taylor-Compton (pouco conhecida ainda), interpreta Lita Ford (e de acordo com rumores foi a única coisa que Lita aprovou na produção do filme) é uma grata surpresa. Ela e Dakota Fanning desenvolvem do meio para o fim do filme uma dinâmica maravilhosa e boa de se ver. Sandy West é interpretada por Stela Maeve, que está regular no papel de coadjuvante com poucas falas que lhe foi dado.

Do meio para o fim do filme o ritmo é acelerado. A banda faz sucesso e suas integrantes (nisso lê-se Joan e Cherie) vão experimentando coisas e situações diferentes. Dakota Fanning carimba a passagem para longe da menina doce de Hollywood com beijo lésbico (é mais que um simples beijo, devo dizer) e sexo num banheiro com o roadie. E devo dizer que fiquei feliz por ela, agora posso esperar coisas grandiosas da menina que sempre parecia ser mais ambiciosa que talentosa.

O final do filme todos sabem. E não há muito o que se dizer. A não ser que o casaco rosa pink de Kristen Stewart é péssimo. Sandy e Lita somem e a relação entre Cherie e Joan tem seu ponto alto, apesar de seu melhor momento ser uma conversa pouco extensa por telefone.

Um ponto do filme que não precisa de comentários é a trilha sonora. Rock. Rock. Rock. E claro, rock do bom.

The Runaways chega aos seus 106 minutos e a tela fica escura. É o fim. Literalmente é o fim.

Não é meu filme favorito no mundo todo, longe disso. Mas certamente, The Runaways é uma das melhores cinebiografias que vi nos últimos tempos. Apesar de Kristen Stewart, claro. E assim, digo, The Runaways é cinema e do bom!!

The Runaways estréia no Brasil em 30 de setembro de 2010 (assisti a uma bootleg copy).

Elenco: Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Tatum O’Neal e outros.

Direção: Floria Sigismondi

Roteiro: Floria Sigismondi e Cherie Curie (livro)

Tagline: “É 1975 e elas estão a ponto de explodir.”